ACOLHIMENTO É PRESENÇA

Acolhimento não é colo. É presença genuína. Sem julgamento. Sem dó. Acolhimento é uma das palavras que tem sido bastante utilizada como sinônimo de proteção e cuidado em diversos contextos, inclusive emocional, social e educacional. Mas qual a sua postura de acolhimento?

Essa é uma resposta individual ao trazer à consciência as incoerências e os curtos-circuitos internos entre as suas atitudes, os seus pensamentos, as suas vontades e os seus sentimentos sobre acolhimento.

Minha intenção não é dissertar aqui o significado da palavra acolhimento. Quero provocar uma reflexão que carece de um autoexame nas pequenas situações diárias para sair do automatismo das ações e das atitudes e ajudar nesta nova consciência e compreensão individual e coletiva sobre a postura de acolhimento.

Acolhimento não é só o significado de cuidar, respeitar, amparar, proteger, apoiar ou aceitar e escutar com empatia (como se tem ouvido muito também!). É a sua intenção (seus porquês) refletida em suas atitudes (como e o que você faz).

É um estado de presença que requer coragem e cultivo da honestidade consigo. Não é algo tão metafísico e remoto. Nem uma meta distante. Não é entender em teoria. É vivenciar a sua verdade do momento. Essa é real sabedoria. É autoconhecimento. Sem generalizações, explicações, julgamentos ou justificativas.

Acolhimento não é colo. Isso não quer dizer que mesmos os adultos não queiram e necessitam receber um colo, um ninar, um apoio. Ao mesmo tempo, também não é sinal de maturidade emocional dizer que não quer e não gosta de receber colo porque “colo é para criança.” Depende de quem dá o colo (sua postura e intenções) e de quem recebe (suas reais necessidades [adultas] numa determinada situação). Cada caso é um caso. Não é possível generalizar ou simplificar.

Para efeito analgésico de curto prazo, pode ser extremamente curativo receber um colo em forma de abraço, ter um ombro para chorar, um apoio. O que não é saudável é gerar dependência ou superproteção ou ainda a perspectiva de incapacidade ou fraqueza de quem necessita receber esse apoio para atravessar as suas dores emocionais.

Por isso, a intenção de dar o apoio é que faz a diferença. Se a intenção é manipular, julgar, criticar, criar dependência sem incentivar que a própria pessoa busque seu crescimento e desenvolvimento, ter dó ou pena, a motivação de quem dá o apoio não é um acolhimento saudável.

Podemos fazer uma analogia ao ambiente infantil e suas distorções. Pais que mimam seus filhos não significa que deram apoio. Mimar não é amar. Amar é dar o que se necessita e não necessariamente o que se quer. Neste sentido, acolhimento pode ser confundido também com permissividade. É uma via de mão dupla de quem dá o apoio e de quem recebe.

Acolher sem julgamento: É muito comum que ao estar na presença de uma pessoa que está passando por um momento difícil, uma perda de um ente querido, de uma doença ou de dores emocionais e frustrações, se tente confortar com palavras. Raramente funciona. Às vezes tem o efeito analgésico de curto prazo. Mas também pode gerar mais raiva ou indignação ou julgamentos de quem recebe, mesmo que não expressos em atitudes, mas em pensamentos e até sentimentos não sentidos.

Nestas horas, para quem oferece o acolhimento, o mais relevante pode ser trazer à sua consciência quais são suas intenções para acolher aquela pessoa. Traga à consciência seus julgamentos, suas crenças, suas verdades sobre aquela situação e principalmente seus sentimentos diante daquela situação. Isso não é autocentrismo. É cuidado para acolher.

Saiba que é bem provável que você não esteja imparcial nem isento. Antes de ir para o outro oferecer acolhimento, acolha você. Sim! É sinal de imaturidade emocional os seus julgamentos ou se achar certo e o outro errado, se sentir mais forte, mais correto, mais sábio, mais evoluído, mais livre ou melhor que o outro em alguma faceta.

Reconheça as suas próprias limitações. Maturidade emocional é diferente de controle das reações emocionais. É trazer à consciência as suas conclusões erradas, suas emoções destrutivas e seus autoenganos.

Com certeza, ao reconhecer seus julgamentos e acolher primeiro você – aceitando as suas imperfeições e suas vulnerabilidades – , é possível estar cada vez mais presente para acolher o outro sem julgamentos.

Vale lembrar aqui que aconselhamento pode não ser o melhor caminho para o acolhimento. É um exercício de presença genuína a auto-observação de si mesmo às pessoas que você acolhe.

Acolher sem dó. Sentir pena de alguém não é um sentimento positivo. Tenho observado muitas vezes o uso da palavra empatia sem a consciência ou compreensão de que muitas vezes pode ser dó, pena. Isso não quer dizer que não se tenha compaixão. Não se trata de um conceito ou/ou. É a inclusão também de sentimentos negativos.

Usualmente dizemos “estou com dó, ai que pena”. “Tal pessoa não merecia isso.”. Enfim! Expressões que falamos automaticamente. Não é preciso explicar ou justificar os motivos do uso dessas falas. O convite é ir além do intelectual e cognitivo. Não é o conhecimento. É ter a consciência e compreensão de quando você sente dó ou pena de alguém e aceitar as suas motivações no acolhimento. Trazer à consciência os seus aspectos imaturos também não exclui os aspectos positivos e maduros.

O convite é sair desse automatismo das palavras e percebem os reais sentimentos. Não há nada errado em sentir sentimentos negativos. Sentir não é agir. Pelo contrário, é trazer à tona e cuidar para escolher acolher primeiro os seus sentimentos imaturos sem julgamentos.

Esse pode ser o passo mais difícil: aceitar os seus reais sentimentos, que nem sempre são positivos e maduros. Reforçando também que aceitar não é ser permissiva com seus sentimentos imaturos nem exigente demais com uma perfeição rígida.

Essa é uma das confusões no ambiente emocional infantil. O oposto de pais que mimam seus filhos pode ser pais extremamente exigente e hostis que podem punir seus filhos e intimidam, gerando medo que podem gerar rebeldia e ressentimentos mais fáceis de detectar. Mas, novamente, cada caso é um caso e os exemplos podem ser simplórios ou generalizados.

Ter consciência das nossas intenções positivas e imaturas é sinal de maturidade emocional, frente às nossas imaturidades inerentes de ser humano. Isso é presença genuína!

Minha proposta é que tenhamos abertura para mudar nossa postura conosco como se estivéssemos educando uma criança emocionalmente imatura. O fato de não ter consciência desses sentimentos nem sempre positivos não faz com que deixem de existir.

Somos o ponto de partida nas nossas relações e só podemos mudar algo em nós se tivermos ciência da sua existência. Não dá pra mudar algo que não temos consciência.

Os momentos de acolhimento são mais genuínos quando são passíveis de. ir além dos julgamentos, opiniões, racionalizações e justificativas. Reconhecer as suas atitudes e motivações para ter mais consciência da sua postura de acolhimento que inclui o que, como e por que acolhe com o reconhecimento da verdade do momento presente [mesmo que num primeiro momento revelado apenas para você!].

Esse é um exercício de presença genuína, incluindo os seus reais sentimentos, mesmo que imaturos. À esta altura você já está aprendendo que os reais sentimentos nem sempre estão revelados, comunicados, aceitos. Eles ficam por trás das nossas reações emocionais imaturas e suas incoerências internas entre o que se quer (vontades), suas crenças, seus julgamentos e suas opiniões (pensamentos).

Cuidar do seu curto-circuito interno é um ato de acolhimento a você que certamente trará mais leveza e amor para acolher genuinamente o outro. Lembrando que as generalizações e, portanto, os exemplos podem ser contraditórios e simplórios.

Há variáveis que devem ser levadas em conta, inclusive a singularidade de cada indivíduo e, por isso, cada caso é um caso e depende das relações e suas interindependências. Faça sua auto análise. Como se dá seu acolhimento aos outros e a você e ainda como você recebe também? Examine especificamente cada fato, cada situação. Inclua suas intenções que podem ser genuínas (é claro), mas não deixe de incluir as suas motivações imaturas. Só um autoexame para responder com honestidade consigo mesmo.

Quer vivenciar esse processo de aprendizagem de forma prática para melhorar sua relação com a vida, consigo e com os outros? Inscreva-se em nosso cadastro para receber o calendário de encontros fechados que ocorrem periodicamente no zoom e saiba como funciona. https://danielareis.hotmart.host/palestras-cadastro

Menu